domingo, 29 de julho de 2012

O Holter

Mais uma vez um aparelho vai medir a intensidade dos sentimentos dela.
Ele vai dizer o quanto doeu a perda, o quanto valeu o ganho, o quanto foi nula a tentativa e o quanto tentar fez falta.

Cada batimento registrado poderia aliviar uma pontinha de pensamento preocupado. Cada batimento registrado deveria atrair uma gota de alegria que se perdeu e manter as tantas que se formaram.

Galopar é bom, mas ninguém começa com um galope! Difícil é voltar pro ritmo. O coração dela precisa bater fora do corpo, ele quer correr, fugir dela, e descansar à sombra, em paz. O pobre está cansado. E ela precisa ficar inerte, sem ele, vazia, dar-se  tempo para pensar, refletir, reagir, gritar, chorar, conversar, amenizar, sofrer e depois sorrir.

Aí, ele vai voltar... calminho, sem anseios, aberto, limpo, brilhante, sem dor, sem pressa, pronto pra continuar batendo, por ela, pra ela, e pra quem ela desejar que ele bata.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Band-aid

Ela está se arrumando. Comprou roupa nova, vestiu a lingerie, a meia-calça, o vestido.
Começou a se maquiar, logo depois de arrumar o cabelo.
Passou rímel, lápis nos olhos, sombra, batom.
Colocou os anéis, os brincos, a pulseira.
A bolsa está pronta, esperando ela dar-se por pronta.
Usou o melhor perfume e avaliou-se no espelho.

A ferida estava lá, na bochecha dela, grande e ainda aberta. Nada tapa, esparadrapo, band-aid, só chamarão mais a atenção.

Ela não vai a festa.

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