Ela precisava satifazer-se, precisava mostrar quem manda e, repentinamente, passou pelas cinco, quase que de uma vez só, aquele instrumento que trazia na mão, o acessório da roupa preta. Elas foram se esvaindo, grãzinho a grãozinho de areia foi correndo pelo corte provocado no tecido costurado com tanto amor pela velhinha, pela vózinha!Elas não sentiam dor física, mas sentiam dor no coração, dor na alma, sentiam-se profundamente entristecidas. Estavam longe e nunca mais seriam felizes novamente, nunca mais pulariam, não seriviriam pra mais nada, era o fim!
Nenhuma reclamou, nem as mais fervorosas, liderado o ranking por Maria Caçula, até esta inexplicavelmente se calou, calou-se como que para sempre, parecia ter aprendido a lição. As outras nem chorar choravam mais, tornaram-se resignadas. Pobre Maria Neta! Mal começou a brincar... Se a Vida quis assim, terá que ser assim, pensavam elas. Só esperavam poder voltar, ao menos poder voltar, o que naquele momento parecia impossível.
A menina é assim, ela te maltrata, mas também sente-se mal com isto.
Quando elas imaginavam que a Vida estaria plenamente satisfeita e soltaria uma risada abundante e demorada, ela despiu-se daquela roupa preta que havia deixado de trocar, jogou a foice fora, com raiva, ela tinha muita raiva, os olhos seguravam as lágrimas com extrema força muscular da face, e sua enorme mão foi levada à garganta, como quem está se sufocando, ela não tinha mais voz, o pescoço doía, era o tal nó na garganta.
É surpreendente. Ela fez o que achou que deveria fazer, mas fez errado. E quem a castigaria? Assim como ela castigou, por que não poderia ser castigada? Existe alguém maior que ela? Talvez a Morte!
Ela é a morte! A morte não existe, e então ninguém poderá com ela! E ela precisava de penitência. Pelo menos era o que ela pensava.
Sentada, com as pernas encolhidas, e com as mãos na nuca ela se mantinha imóvel. As Marias limitavam-se a olhar, não tinham noção de há quanto tempo a menina estava assim parada, e quanto tempo mais ficaria naquela posição.
Uma a uma se locomoveram, desenchendo cada vez mais a cada passo e se aproximaram dos pés da menina. Se estavam tristes, arrasadas, então que se mostrassem unidas, arrependidas, que pudessem dar um restinho de generosidade, sentimento e calor que ainda sobrava, que não havia se esvaído com a areia dos saquinhos. A menina sentiu-se bem, sentiu-se perdoada, e o sentimento de perdão supriu o sentimento de penitência que alimentava, parecia que um acordo naquele momento se fazia.
Foi então que ela levantou-se e começou a trançar o cabelo, e com gestos nobres colocou uma a uma por entre os nós da sua longa trança, para que ficassem seguras e as levou de volta para casa, num vôo lento, delicado e muito prazeroso.Ao chegarem ao seu quarto, ela derramou no chão areia do vazinho de flores e permitiu a que vó as enchesse e costurasse, como havia feito no começo, no começo de tudo. A Vó estava lá novamente, e com aquele sorriso que só quem a conheceu poderá imaginar. Ela aconchegou cada uma nos seus braços carinhosos e as consertou, pedindo que elas "secassem as suas cacimbinhas", como dizia quando elas eram crianças, pois não era mais necessário choro, a alegria estava de volta ao saquinho das 5 Marias. Ou 6?
