segunda-feira, 13 de junho de 2011

Quem castiga a Vida?


Ela precisava satifazer-se, precisava mostrar quem manda e, repentinamente, passou pelas cinco, quase que de uma vez só, aquele instrumento que trazia na mão, o acessório da roupa preta. Elas foram se esvaindo, grãzinho a grãozinho de areia foi correndo pelo corte provocado no tecido costurado com tanto amor pela velhinha, pela vózinha!

Elas não sentiam dor física, mas sentiam dor no coração, dor na alma, sentiam-se profundamente entristecidas. Estavam longe e nunca mais seriam felizes novamente, nunca mais pulariam, não seriviriam pra mais nada, era o fim!

Nenhuma reclamou, nem as mais fervorosas, liderado o ranking por Maria Caçula, até esta inexplicavelmente se calou, calou-se como que para sempre, parecia ter aprendido a lição. As outras nem chorar choravam mais, tornaram-se resignadas. Pobre Maria Neta! Mal começou a brincar... Se a Vida quis assim, terá que ser assim, pensavam elas. Só esperavam poder voltar, ao menos poder voltar, o que naquele momento parecia impossível.

A menina é assim, ela te maltrata, mas também sente-se mal com isto.
Quando elas imaginavam que a Vida estaria plenamente satisfeita e soltaria uma risada abundante e demorada, ela despiu-se daquela roupa preta que havia deixado de trocar, jogou a foice fora, com raiva, ela tinha muita raiva, os olhos seguravam as lágrimas com extrema força muscular da face, e sua enorme mão foi levada à garganta, como quem está se sufocando, ela não tinha mais voz, o pescoço doía, era o tal nó na garganta.

É surpreendente. Ela fez o que achou que deveria fazer, mas fez errado. E quem a castigaria? Assim como ela castigou, por que não poderia ser castigada? Existe alguém maior que ela? Talvez a Morte!

Ela é a morte! A morte não existe, e então ninguém poderá com ela! E ela precisava de penitência. Pelo menos era o que ela pensava.

Sentada, com as pernas encolhidas, e com as mãos na nuca ela se mantinha imóvel. As Marias limitavam-se a olhar, não tinham noção de há quanto tempo a menina estava assim parada, e quanto tempo mais ficaria naquela posição.
Uma a uma se locomoveram, desenchendo cada vez mais a cada passo e se aproximaram dos pés da menina. Se estavam tristes, arrasadas, então que se mostrassem unidas, arrependidas, que pudessem dar um restinho de generosidade, sentimento e calor que ainda sobrava, que não havia se esvaído com a areia dos saquinhos. A menina sentiu-se bem, sentiu-se perdoada, e o sentimento de perdão supriu o sentimento de penitência que alimentava, parecia que um acordo naquele momento se fazia.

Foi então que ela levantou-se e começou a trançar o cabelo, e com  gestos nobres colocou uma a uma por entre os nós da sua longa trança, para que ficassem seguras e as levou de volta para  casa, num vôo lento, delicado e muito prazeroso.
Ao chegarem ao seu quarto, ela derramou no chão areia do vazinho de flores e permitiu a que vó as enchesse e costurasse, como havia feito no começo, no começo de tudo. A Vó estava lá novamente, e com aquele sorriso que só quem a conheceu poderá imaginar. Ela aconchegou cada uma nos seus braços carinhosos e as consertou, pedindo que elas "secassem as suas cacimbinhas", como dizia quando elas eram crianças, pois não era mais necessário choro, a alegria estava de volta ao saquinho das 5 Marias. Ou 6?

domingo, 12 de junho de 2011

Ontem

Ontem ela se deitou e um texto inteirinho desenrolou-se na cabeça dela, frase a frase, vírgula a vírgula, e entre frases e vírgulas havia sentimento e era mais ou menos assim...

Certa vez ela se doou de corpo e alma, mas só conseguiu laços com a alma, o corpo não sustentou a relação, ou melhor, ela achava que não havia sustentado, mas doar-se por tão pouco tempo foi suficiente para que ele voltasse a procurar por ela. E por que "ele"  e não "ela"? Por que ela pensa que é "ele" e não "ela". Só isso!

E só ontem ela percebeu que ele pode ter vindo velho, adulto, menino ou bebê? Mais uma dúvida! Ela só sabe que ele veio sapeca, travesso, brincalhão, e ela nunca teve medo dele. Mas o importante foi que ele veio para o momento da despedida. Privilégio pra ela! E que a sua chegada tenha sido explêndida, a final, se ele "cresceu" com ela em apenas tão pouco tempo, ele mereceu chegar!

Depois ela se doou novamente, de corpo e alma, cheia de medo, cheia de ansiedade, querendo sentir cada momento do dia à flor da pele. Ela sabia que ele não voltaria, mas sabia que alguém chegaria, e ela não queria ser mais um instrumento, instrumento importantíssimo de passagem, mas queria ser um instrumento pra esta vida. E ela compartilhou, o corpo ainda é dela, mas a alma já foi entregue, a alma e o coração. Se doou pra alguém que realmente chegou, e este ela sabe, chegou "ele" e chegou bebê.

E ela se pergunta, por que tanto amor, de onde sai tanto sentimento por ela? Ela não é ninguém especial... ela só conseguiu se doar, e recebe doação em troca.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O dia em que Cristo fechou os braços.


RIO - O Cristo Redentor "fechou" os braços, num abraço simbólico ao Rio de Janeiro, na noite da última terça-feira (19/10/10)

O efeito - uma ilusão de ótica provocada por projeção de luzes e imagens - faz parte da campanha "Carinho de Verdade", de combate à violência e exploração sexual de crianças.
Para simular o abraço, o cineasta Fernando Salis usou oito projetores, que cobriram a estátua com imagens do Rio, como sobrevoos de asa-delta, as florestas e até mesmo o trânsito.
Ao som de Bachianas Brasileiras n.º 7, de Villa Lobos, e com animação em 3D, a estátua parece fechar os braços

quarta-feira, 8 de junho de 2011

E o castigo começou...

E o castigo veio a cavalo, e a um galope violento!

Ela soprou e o fogo acalmou, um restinho de fumaça foi sufocado com uma gotinha de saliva e sem se preocupar em recolocar a roupa branca a menina com apenas uma mão, aquela mão enorme, arrecadou todas as Marias e as colocou no seu capuz, sem se importar se estariam seguras, se estariam com medo, sem se preocupar em saber quem era a culpada. Ela alçou um vôo repentino e veloz, um vôo que parecia entrar na órbita do planeta e em segundos dava um rasante na terra, no mar, nas areias ferventes do deserto, na neve dos pólos do planeta, em canions e cataratas e na copa das árvores mais altas das maiores florestas ainda existentes.

Elas gritavam, gritavam muito, tentando segurar com a pouca força que ainda restava um centímetro que fosse do pano preto do capuz, para que não caíssem e se perdessem umas das outras em qualquer parte do mundo. E a menina ria! Ria muito!!! Loopings e loopings, era mais que uma montanha russa, era uma loucura total. Pra menina parecia uma brincadeira, mas ela na verdade, talvez sem perceber, estava mostrando o seu poder. Ela é assim, sem querer, te mostra que pode e que você não é ninguém, não é pário pra ela.

É a Vida!

Segundos pareceram anos, anos pareceram milênios, e milênios depois elas sentiram voltar ao segundo em que tudo começou. Porém, o lugar era estranho, nada parecido com nada do que conheciam, mas não era ruim, também não era bom.

Quase não tinham voz pra falar, de tanto gritarem estavam roucas. Os rostos inchados, choravam muito, arrependidas, embora não tivessem provocado o fogo juntas, estavam juntas, e como explicar, e como deixar Maria Caçula só numa situação tão difícil, e como lidar com a falta dos seus? O coração de Maria do Meio doía, como se fosse enfartar, como se estivesse do lado de fora do seu corpo, desprotegido. Não conseguia suportar a idéia de estar longe do seu Soldadinho de Chumbo. E Maria Mais Velha, afastada do Pingo de Ouro?! Não há dor maior, faz-se o que for possível, impossível, desejado, exigido pela Vida pra ficar junto de quem se ama incondicionalmente. Maria Mãe não soltou Maria Neta por um instante se quer, e Maria Caçula sentia arrependimento, mas não admitia. Talvez este fosse o grande problema.

E a menina cobraria um preço. Nem sempre o preço é alto, mas sempre é cobrado, mexeram com ela, não passaria em branco.

Até que ela falou, com uma voz tão doce e meiga. O seu semblante parecia dizer que elas eram tolas, que tudo estava bem, que era só uma brincadeira.

- Vocês brincaram com fogo então fizeram xixi na cama!

Entretanto, ela te engana, ela queria que elas pagassem...O susto não foi o bastante, ela queria mais... E teria que ser satisfeita, caso contrário, não voltariam pra casa jamais!

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