Hoje Ela precisou ir ao banco, foi a pé, o banco é perto, qualquer banco que você queira tem perto da casa dela. Ela encarou o sol, sol forte, viu uma mulher de chapéu, pensou em aderir à moda, o chapeuzinho ela até já tem, depois pensou em uma sombrinha, e logo lhe veio ao pensamento a imagem da vó, da vózinha dela. A vó usava sombrinha pra proteger-se do sol, daquelas pequenininhas, de guardar na bolsa, a sombrinha era sua fiel escudeira.
A vó dela foi uma mulher e tanto, viúva, criou 10 filhos, sendo que a mais nova tinha só 1 ano na ocasião da viuvez. Ela não se desfez de nenhum deles! Parece estranho, mas naquela época, 1950, no interior, os pobres em situação de muita necessidade davam seus filhos pras famílias mais abonadas e vinham pra Porto Alegre, nunca mais uniriam aquela família novamente.
Ela não!
Foi ela quem costurou o saquinho de pano das 5 Marias, tudo começou com ela, foi ela quem presenteou a Vida.
Ela era baixa, gordinha, cabelos mais brancos do que de outra cor, lisos e compridos, sempre usava um cóque ou um biricóque, como quiser chamar! A vó tinha nome de Deus, Deusdita, mas pra todos era a Vó Dita, a Dona Dita.
Ela era muito boa, boníssima, os filhos não são metade do que ela foi, os netos não são 1/3. Não que eles sejam ruins, de jeito nenhum, ela é que era boa demais, além do esperado, muito mais do que o necessário pra uma vida, vida da qual passou o resto sózinha. Talvez o marido tenha sido o grande amor da sua vida. Sorte de quem o encontra! Mas ela não morreu de amor, não podia nem morrer, quanto mais de amor.
Maria do Meio lembra-se até hoje de quando a viu chorar pela primeira e última vez, é desconcertante ver um adulto, um idoso chorando quando se é tão pequeno, ainda mais pelos motivos que ela chorava, chorava e se defendia, se defendia do que não precisava defesa. A Maria nunca entendeu direito o que aconteceu, por que a vózinha dela chorava daquele jeito.
