Que eles se adoram dá pra ver... fica estampado nos seus rostinhos. O pequeno Pingo de Ouro bate palminhas quando o primo, o Soldadinho de Chumbo chega, ele balança as suas perninhas freneticamente. Ele acaricia o primo maior, com as suas mãozinhas contornando o seu rosto, e falando "ahhhh...ahhhh....ahhhh".
Pois bem, o dia da comemoração do seu primeiro aninho junto às 5 Marias chegou. Todos em festa! A vida estava eufórica! É uma grande vitória manter-se por um ano em um serzinho tão forte, mas tão frágil e tão necessitado de cuidados como um bebê. Ela vencia! E sorria! Usava roupa branca, muito branca, impecavelmente esticada. Os cabelos eram lisos, pra quem quisesse que fossem lisos, encaracolados, pra quem preferisse assim. Curtos, compridos, negros, ruivos, loiros, "ao gosto do freguês"!
Como em dias comuns, alheio à tanta movimentação o Pinguinho de Ouro foi banhado, arrumado e dirigiu-se ao salão da grande comemoração com seus pais, Maria Mais Velha e Calmaria. As Tias Maria do Meio e Maria Caçula não queriam nada além de afofá-lo e falar o quanto ele estava elegante! Logo o Soldadinho de Chumbo correu para acariciá-lo. E assim a festa se desenrolou!
Festa, música, conversas, comidas, brincadeiras, barulho, distração e.... Onde estavam os dois, onde estariam os primos? Não pode ser? Como teriam saído do salão? E teriam ido para onde? E sem autorização da menina? Humm, eles são pequenos, mas sabem que ela é geniosa, voluntariosa, mandona, tem as rédias nas mãos e muitas vezes não compreende seus próprios atos, é a Vida! Quanto risco! Teriam sido levados? Estariam escondendo-se?
Enquanto a família começava a dar conta do seu sumiço, os dois caminhavam, ou melhor, o Soldadinho de Chumbo conduzia o engatinhar do pequeno Pingo de Ouro. Não sabiam onde iriam, mas sabiam que iriam. E foi assim que voaram, num cavalo azul, como o da história, o cavalo não era alado, essas coisas não existem, mas que ele voava, voava.
O vôo foi alto e extenso. Sobrevoaram cidades, praias, campos. Os dois agarradinhos na crina do gentil animal, que não galopava. O cavalinho flutuava e conduzia o seu vôo ao sabor das emoções dos primos.
O tempo passou sem que percebessem. Normalmente crianças nesta idade não sabem contar o tempo. O Soldadinho tinha mais noção, mas Pingo de Ouro só queria tentar pegar o vento!
O cavalinho parou, num lugar muito agradável, um lugar que nunca houveram de estar antes, e não estariam lá tão cedo. Estariam onde? Não tinha brilhos, não tinha brinquedos, não tinha coisas mágicas nem formas excêntricas que hipnotizariam qualquer um. Era simplesmente um lugar bom de se estar, aí estava o verdadeiro encantamento do lugar.
Sentadinhos, de mãozinhas dadas, muito tranquilamente, perceberam a proximidade de alguém, alguém que lhes causou bem-estar, lhes proporcionou paz, sorrisos de satisfação, pois sem perceberem estavam conhecendo alguém muito importante na vida deles, alguém que foi responsável pelo começo, o começo de tudo, uma hábil costureira...(A Avó)
Ela carinhosamente os acolheu em seu colinho, os acariciou, os beijou com uma estima incomparável, somente próxima a quem segura seus filhos amados e então os abençoou, dizendo que os "aventureiros" deveriam voltar para a festa, pois estariam fazendo falta e que nunca se esquecessem de que não são primos por acaso, que suas vidas se cruzaram por um motivo, o qual eles só poderiam compreender muito mais tarde, e que a forte e visível amizade deles deveria ser cultivada para todo o sempre.
E assim os pequenos montaram no seu cavalo azul, que como já disse, não tinha asas, mas voava, e voltaram para a festa. Numa fração de tempo os dois foram encontrados debaixo de uma das mesas, distraidamente brincando com os animaizinhos da fazenda.
Ahã, o tempo é relativo, e dá pra muita coisa! E ela estará sempre por perto!
